Escassez de profissionais de Linux provoca crise

São Paulo - Menos teoria e mais prática. É isso o que buscam companhias empenhadas em realizar parcerias com universidades e instituições de ensino para formar profissionais que não encontram no mercado. Apesar da crise econômica brasileira e, consequentemente, do enxugamento de vários quadros — alguns setores seguem sofrendo para preencher vagas por falta de gente qualificada.

O que algumas empresas já perceberam é que só o treinamento interno não tem sido suficiente para melhorar a formação de seus profissionais. Como alternativa, estão batendo à porta de instituições de ensino e propondo novas grades curriculares, com temas mais relevantes para o dia a dia do negócio. Tudo isso com o respaldo e a aprovação do Ministério da Educação.

“São exemplos que têm se multiplicado com o objetivo de garantir profissionais mais alinhados às necessidades das companhias”, afirma Joel Dutra, professor da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis (FEA) da Universidade de São Paulo.

Com planos ousados de crescimento, a Amgen, empresa global de biotecnologia listada na bolsa americana Nasdaq e presente há quatro anos no Brasil, ainda esbarra na falta de profissionais que dominem desde a regulamentação de medicamentos até a tecnologia de ponta — um problema comum a empresas de seu segmento.

“O setor tende a crescer exponencialmente e o Brasil ainda está consolidando o mercado doméstico, com indústrias nacionais e multinacionais investindo forte”, afirma Marcelo Vianna de Lima, diretor médico da Amgen Brasil. “Uma das formas de resolver essa questão foi traçar parcerias com universidades.”

A primeira iniciativa da empresa no país é com a Universidade Estadual do Ceará. Juntas, empresa e escola criaram um mestrado profissional em biotecnologia em saúde humana e animal. A ideia surgiu no ano passado, quando Lima conheceu a professora Paula Lenz em uma rede de biotecnologia que reúne empresas, instituições governamentais e de ensino para discutir o setor.

“Começamos a conversar e a discutir a possibilidade de montarmos um curso que unisse o conhecimento da universidade com as necessidades práticas que percebemos no mercado”, afirma Lima.

Além de criar a grade curricular em conjunto com a professora, a Amgen forneceu módulos de disciplinas online desenvolvidas por universidades americanas de acordo com as especificidades da empresa. “A universidade tem o papel de formar, mas é deficiente na questão prática. Unindo a ciência com as dificuldades e os desafios do dia a dia das companhias, vamos conseguir uma melhor qualificação das pessoas”, diz Lima.

O curso deverá começar no segundo semestre e contará com uma base teórica para a capacitação de etapas relacionadas a desenvolvimento, produção e registros de biofármacos e bioderivados, como também com o conhecimento do arcabouço legal.

“Devemos diminuir uma carência enorme de alunos treinados em biotecnologia no país”, acredita o professor José Nunes Ferreira, coordenador do mestrado. Para ele, essa parceria permite uma visão mais ampla também para a academia. “Vamos poder gerar tecnologias que, de fato, serão aplicadas no mercado, permitindo a formação de profissionais com melhor entendimento de processos práticos”, diz.

A mineradora Vale foi uma das pioneiras em levar o conhecimento da indústria para dentro da universidade. A primeira iniciativa da companhia de customizar um curso de pósgraduação foi em 1989, quando percebeu que os professores das universidades não tinham experiência nem conhecimento nas áreas de atuação da companhia.

Em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo, criou um curso de engenharia ferroviá­ria, formado com professores da própria empresa. “De modo geral, os engenheiros formados não atendem às especificidades de processos das empresas da cadeia produtiva de mineração, portuária e ferroviária”, afirma Carla Soutelinho, gerente de educação corporativa da Vale.

De lá para cá, diversos modelos e parcerias com universidades foram criados. Alguns para atender à demanda de formação dos próprios funcionários, outros para qualificar profissionais do mercado. A especialização em portos, realizada em Moçambique, é um exemplo desse segundo modelo que começa a crescer aqui no Brasil.

Em parceria com a Universidade Federal do Maranhão e o Instituto Superior de Transporte e Comunicações de Moçambique, a Vale promoveu o curso de outubro a dezembro do ano passado. No total, a disciplina teve 30 participantes, entre funcionários da empresa, do governo de Moçambique e de companhias da região. Bom para as empresas e bom para as universidades. “É uma oportunidade de enriquecimento do quadro de professores, que sofre com um distanciamento histórico da indústria”, diz Carla.

Da indústria para a academia

Transformar seus profissionais mais experientes em professores, treinando-os para assumir uma turma de alunos, é o meio que as empresas estão encontrando para levar a experiência prática do mercado para a escola.

Com mais de 34 anos de experiência no setor de mineração, Joaquim Donizetti Donda, gerente técnico da Vale e especialista técnico de processos, é um desses professores que dividem a carga horária de trabalho entre os processos de mineração e a sala de aula. “Com o conhecimento adquirido ao longo dos anos, o setor cria processos cada vez mais elaborados. O que faço é levar o que aprendi para os novos profissionais do setor”, diz.

O Grupo Total, companhia francesa do setor de óleo e gás, também tem preparado seus funcionários para promover uma aproximação entre o mundo do petróleo e os futuros profissionais, que ainda esquentam os bancos das universidades. A empresa conta com 280 funcionários — ativos e aposentados — preparados para formar jovens das universidades em temas específicos do setor.

“São pes­soas que possuem conhecimento altíssimo, consideradas experts em diversas áreas, desde exploração até marketing voltado para distribuição”, afirma Ulisses Martins, diretor de assuntos corporativos da Total.

Esses especialistas fazem parte da Total Professeurs Associé, organização sem fins lucrativos que reúne os profissionais de 137 áreas de conhecimento. Apenas nos anos de 2012 e 2013, a organização realizou mais de 1 865 dias de cursos no Brasil, França, China, Rússia, Indonésia, Uganda, África do Sul, Iraque, Tailândia e Venezuela.

Aqui, o primeiro curso foi realizado em 2009. Atualmente, a empresa conta com parcerias com as três principais universidades do estado do Rio de Janeiro — UFRJ, Uerj e UFF — e, neste ano, iniciou o projeto com a Unicamp.

Os cursos costumam durar uma semana, com temas técnicos e inovações tecnológicas em desenvolvimento pela indústria do petróleo, além de questões políticas, econômicas e sociais que envolvem o setor em diferentes países. “A indústria de petróleo, de uma forma geral, sofre com a falta de profissionais.

Em alguns lugares, como no Brasil, a lacuna de conhecimento é ainda maior. Por isso, precisamos atrair esses jovens e formá-los”, diz Martins. Mais do que absorver todo esse volume de pessoas, a preocupação da Total é formar e qualificar profissionais para o setor. O mercado agradece.

Fonte: VocêRH

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